segunda-feira, 28 de julho de 2014

Grupo faz mapeamento detalhado da matéria escura no Universo


Um grupo internacional de pesquisadores acaba de concluir um mapeamento
detalhado da distribuição da misteriosa matéria escura pelo Universo.
Ninguém sabe exatamente do que ela é feita, o que se torna ainda mais constrangedor
diante do fato de que a matéria escura responde por 80% de toda a matéria do
Cosmos.
Os novos resultados parecem apoiar o modelo mais popular entre os cientistas,
segundo o qual a matéria escura é composta por partículas que se movem a
velocidades muito inferiores às da luz e que, apesar de ter massa, interagem muito
fracamente com a matéria convencional.
Contudo, o estudo ainda está longe de ser capaz de discriminar de forma definitiva
entre os diversos modelos cosmológicos possíveis.
"Ainda há muitas alternativas que se encaixam", disse à Folha Martín Makler,
pesquisador do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) que participou do
trabalho, publicado no periódico "Monthly Notices of the Royal Astronomical Society

O MAPA DO INVISÍVEL
Não é trivial realizar um mapeamento de uma forma de matéria que não emite luz e,
portanto, é invisível.
Os cientistas precisam recorrer ao único efeito detectável produzido pela matéria
escura: a gravidade que ele exerce sobre os objetos visíveis.
Em particular, o grupo, que tem pesquisadores da Suíça, da França, do Canadá, da
Alemanha e do Brasil, explorou um fenômeno que foi primeiro previsto pela teoria da
relatividade geral, de Albert Einstein: as lentes gravitacionais.
É a ideia de que um corpo celeste mais próximo que esteja entre nós e outro objeto
mais distante faz com que os raios de luz do objeto afastado se curvem suavemente,
do mesmo jeito que a refração de uma lente convencional faz.
Como a matéria escura representa muito mais massa do que a convencional, seu
efeito nas lentes gravitacionais é pronunciado. Ao detectar as distorções nos caminhos
da luz, é possível estimar a quantidade de matéria escura no espaço que separa o
objeto mais distante de nós.
O resultado do esforço, feito com o Telescópio Canadá-França-Havaí, é um mapa
bidimensional sem profundidade, portanto da distribuição da matéria escura, que
cobre uma faixa do céu com 170 graus quadrados de área.
RESOLUÇÃO
Uma das novidades importantes do novo estudo é que os pesquisadores incluíram no
mapa as concentrações não muito grandes de matéria escura _os chamados picos
baixos.
"Com isso ganhamos muito mais 'objetos' e, portanto, precisão na medida", destaca
Makler.
O resultado também traz consigo novos mistérios. Os pesquisadores encontraram por
exemplo alguns picos que não correspondem a grupos e aglomerados de galáxias. Ou
seja, os "objetos" que teriam curvado os raios de luz seriam 100% escuros, sem
matéria convencional.
É um achado intrigante, de forma que os cientistas agora estão concentrados em
confirmar que esses picos são reais. "Se não há galáxias ou aglomerados associados,
isso teria fortes implicações para a cosmologia, no nosso conhecimento sobre a
formação de estruturas no Universo", afirma o pesquisador.
Importante lembrar que o estudo também ajuda a desvendar a outra metade do
mistério da cosmologia moderna: a energia escura. Trata-se de uma força que está
acelerando a expansão do Universo, agindo contrariamente à gravidade, e que
ninguém, no momento, sabe exatamente o que é.

Endereço da página:
http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2014/07/1492049-grupo-faz-mapeamento-detalhado-da-materia-escura-no-universo.shtml 

terça-feira, 1 de julho de 2014

Um Sistema Solar em miniatura

POR SALVADOR NOGUEIRA - Portal Uol.

Concepção artística do planeta Gliese 832c, membro de um sistema de configuração similar ao solar.

Um grupo internacional de astrônomos identificou ao redor de uma estrela anã vermelha o que pode ser considerada uma réplica em miniatura do nosso próprio Sistema Solar.
Na região mais externa do sistema em torno da estrela Gliese 832, já se sabia existir desde 2009 um planeta análogo ao nosso Júpiter, que completa uma volta a cada 9,4 anos.
Agora, o novo achado: garimpando os dados brutos colhidos por telescópios em terra e reprocessando-os com técnicas mais sofisticadas de análise estatística, os pesquisadores liderados por Robert Wittenmyer, da Universidade de Nova Gales do Sul, na Austrália, encontraram o sinal de um segundo planeta, menor, na região mais interna do sistema: uma superterra ou, talvez mais provavelmente, um supervênus.
Esse segundo planeta teria no mínimo 5,4 vezes a massa da nossa Terra (daí o “super” na classificação) e completaria uma volta em torno de sua estrela a cada 36 dias. Em tese, ele está dentro da chamada zona habitável — região do sistema em que ele pode ter água em estado líquido na superfície. Poderia, portanto, ser adequado ao surgimento da vida.
“Dada a grande massa do planeta, contudo, é provável que ele seja envolvido por uma densa atmosfera — o que por sua vez poderia torná-lo inabitável”, escrevem os pesquisadores no artigo que relata a descoberta, aceito para publicação no “Astrophysical Journal”. “Nesse cenário, a atmosfera densa produziria um forte efeito estufa, aumentando a temperatura superficial o suficiente para provocar a evaporação dos oceanos, como se acredita que tenha ocorrido com Vênus muito cedo na evolução do Sistema Solar.”
É importante ressaltar que a essa altura é cedo para concluir que Gliese 832c (como o planeta foi batizado) é uma superterra ou um supervênus. Embora os autores da descoberta apostem que se trata de um mundo inabitável, um cálculo paralelo feito pela equipe do Laboratório de Habitabilidade Planetária da Universidade de Porto Rico em Arecibo sugere que, se o planeta tivesse uma atmosfera similar à da Terra, apenas proporcionalmente maior em razão da massa, sua temperatura média global seria de 22 graus Celsius.
Esse dado, por si só, foi o suficiente para o planeta entrar na terceira posição no ranking organizado por esse grupo de cientistas, em termos de sua potencial similaridade com a Terra. A essa altura, já são 23 os mundos listados como possíveis abrigos para a vida pela turma de Arecibo.
Duas coisas em particular entusiasmam o Mensageiro Sideral neste novo achado. Primeiro, com a descoberta, encontramos um sistema planetário que parece ter seguido a mesma história evolutiva do nosso. Até a descoberta dos primeiros mundos fora do Sistema Solar, os astrônomos imaginavam que esta fosse a receita padrão: planetas gigantes gasosos surgem na periferia do sistema, onde o gás que sobrou da formação da estrela central custa mais a dissipar, e planetas terrestres aparecem nas regiões mais internas, onde há predominância de silicatos (rochas) e pouco gás.
A realidade se mostrou mais variada que isso quando os primeiros exoplanetas em torno de estrelas similares ao Sol começaram a ser descobertos, em 1995. Alguns sistemas têm planetas gasosos numa região extremamente interna, onde em tese eles não poderiam surgir. Outros parecem ter apenas mundos rochosos, sem planetas gigantes. E outros parecem ter só um planetão numa órbita bem elíptica. Claramente, a essa altura, já sabemos que réplicas do Sistema Solar não são um desfecho obrigatório.

UMA CONFIGURAÇÃO AMIGÁVEL
Por que nos importamos em encontrar sistemas planetários semelhantes ao nosso? Não basta que existam mundos rochosos na distância certa da estrela para que a vida surja? Bem, talvez não seja tão simples assim.
O nosso bom e velho Júpiter, por exemplo, tem um papel preponderante para a manutenção das condições que temos na Terra. Simulações mostram que ele serve como uma espécie de escudo contra cometas que poderiam impactar com nosso planeta, desviando-os com sua gravidade poderosa. É fato que, de vez em quando, uma colisão dessas acontece. Mas seria muito mais frequente — talvez algo como um impacto a cada 100 mil anos — se não fosse por Júpiter.
Será que a vida só prospera em sistemas onde há um planeta gigante gasoso que exerça esse efeito protetor? Não sabemos. Fato é que Gliese 832b, o análogo de Júpiter daquele sistema, pode muito bem fazer esse serviço por lá.
Ainda não sabemos quão rara é essa configuração, encontrada aqui e em Gliese 832. Ainda existem viéses de detecção que dificultam a elaboração de estatísticas completas. Ou seja, não conseguimos dizer com que frequência estrelas similares ao Sol produzem sistemas similares ao solar. Mas encontrar alguns exemplares parecidos, como este de agora, ajuda a confirmar a ideia de que análogos do Sistema Solar não são um desfecho improvável do processo de formação planetária — embora decerto sejam menos comuns do que se imaginava antes da era dos exoplanetas.
O maior charme do sistema Gliese 832, contudo, é sua proximidade com a Terra. Ele está a “apenas” 16 anos-luz de distância. Muitos torcem o nariz e dizem: “Como se fosse possível ir até lá.” De fato, com as tecnologias atuais, uma viagem até lá, tripulada ou não, é impossível.
Entretanto, a essa distância, o Telescópio Espacial James Webb, com lançamento previsto para 2018, será capaz de analisar a atmosfera do planeta. E, a julgar pelo exemplo terrestre, a composição do ar pode perfeitamente trair a presença de vida. Ou seja, se Gliese 832c for um planeta de fato habitável (com vapor d’água na atmosfera) ou mesmo habitado (quem sabe com oxigênio fora de equilíbrio químico?), podemos saber disso antes que a atual década se esgote.
A pergunta “Estamos sós no Universo?” está cada vez mais próxima de ser respondida. Não sei quanto a você, mas eu me sinto privilegiado por viver exatamente nesta época em particular da história humana. Grandes descobertas nos aguardam.